Quantas portas continuam fechadas?

Nos últimos dias, as manifestações pelo direito à habitação têm ocupado os noticiários e levado muitas pessoas, sobretudo jovens, a fazer ouvir a sua preocupação. E compreendo-a. Afinal, estamos a falar de algo tão essencial como ter uma casa, construir uma vida independente, constituir família ou, simplesmente, poder escolher onde e como viver.

A habitação tornou-se uma das grandes preocupações da sociedade portuguesa e é uma realidade à qual, enquanto cidadã e profissional do setor imobiliário, não consigo ficar indiferente.

Tenho vindo a abordar este tema em vários artigos do meu blogue, procurando compreender as razões que nos trouxeram até aqui. E, embora não pretenda transformar este espaço numa tribuna de discussão política, há questões sobre as quais considero importante refletir.

Desde logo, uma convicção que me parece indiscutível: o acesso à habitação é um direito de todos, consagrado no artigo 65.º da Constituição da República Portuguesa. É, por isso, perfeitamente legítimo que os cidadãos manifestem a sua preocupação e reclamem respostas para as dificuldades que enfrentam.

Os números ajudam a perceber a dimensão do problema. Segundo o Eurostat, no segundo trimestre de 2026, os preços das casas em Portugal aumentaram 16,5% face ao mesmo período do ano anterior, a maior subida registada entre os países da União Europeia com dados disponíveis.

Não surpreende, portanto, que tantas pessoas sintam que a possibilidade de comprar ou arrendar uma casa se vai afastando, mesmo quando trabalham, poupam e procuram organizar a sua vida com responsabilidade.

Mas, perante esta realidade, há duas questões que gostaria de trazer à reflexão.

Primeira questão: E o património que já existe?

Quando pensamos em soluções para a crise habitacional, falamos frequentemente da necessidade de construir mais casas. E é evidente que precisamos de aumentar a oferta. Contudo, há uma pergunta que me acompanha há bastante tempo: estaremos a aproveitar devidamente o património imobiliário que já temos?

Basta percorrer algumas cidades para encontrar edifícios fechados, imóveis sem utilização aparente e património que, por diferentes razões, permanece afastado da função que poderia desempenhar.

Refiro-me, em particular, aos imóveis pertencentes ao Estado e a outras entidades públicas, incluindo património sob responsabilidade de diferentes organismos e instituições.

A este propósito, o parecer do Tribunal de Contas sobre a Conta Geral do Estado de 2025, divulgado em setembro de 2026, assinala que cerca de 30% dos imóveis da Segurança Social se encontravam devolutos, ocupados indevidamente ou sem contrato de arrendamento válido.

Naturalmente, estas situações são distintas, e nem todos os imóveis terão condições ou características que permitam destiná-los a habitação. Alguns necessitam de obras profundas, outros poderão ter limitações legais, patrimoniais ou funcionais.

Ainda assim, considero que estes dados justificam uma reflexão séria sobre a gestão e o aproveitamento dos recursos existentes.

Não defendo soluções improvisadas, nem acredito que seja possível converter indiscriminadamente edifícios públicos em habitações. Mas gostaria de ver uma aposta cada vez mais consistente na identificação, recuperação e valorização dos imóveis que possam ser colocados ao serviço das pessoas.

Se há famílias à procura de casa e património público que poderia, em determinadas circunstâncias, ser recuperado para esse fim, parece-me razoável perguntar se estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance.

Construir é necessário. Recuperar e aproveitar melhor o que já existe também deveria fazer parte desta equação.

Segunda questão: Será que estamos a olhar para todo o país?

Há uma segunda questão que gostaria de abordar, desta vez dirigindo-me especialmente aos mais jovens.

Compreendo perfeitamente o desejo de viver em Lisboa, no Porto ou noutras grandes cidades. São locais onde se concentram muitas oportunidades profissionais, empresas, universidades, serviços e atividades culturais.

Durante grande parte da minha juventude, também era assim que olhávamos para o país. Quem ambicionava determinada carreira ou procurava uma vida cultural mais diversificada dificilmente imaginava encontrar as mesmas oportunidades fora dos principais centros urbanos.

Mas Portugal mudou. E talvez ainda não tenhamos ajustado completamente a nossa forma de pensar a essa mudança.

Hoje, cidades como Viseu, Covilhã, Guarda, Bragança ou Évora oferecem realidades muito diferentes das de há algumas décadas. Têm instituições de ensino superior, serviços, iniciativas culturais, tecido empresarial e comunidades que merecem ser conhecidas e consideradas.

Claro que existem diferenças importantes entre estes territórios, nomeadamente ao nível do emprego, dos transportes e dos serviços disponíveis. Não pretendo apresentar nenhuma destas cidades como uma solução universal ou sugerir que mudar de residência resolve, por si só, as dificuldades de acesso à habitação.

Mas acredito que vale a pena alargar o horizonte das nossas escolhas.

Penso, por exemplo, nos jovens médicos, advogados, engenheiros e profissionais de tantas outras áreas que, ao iniciarem a sua carreira, concentram frequentemente as suas expectativas em Lisboa e no Porto.

Será que não existem oportunidades interessantes noutras regiões? Será que, em determinados casos, uma cidade de menor dimensão não poderá proporcionar melhores condições para começar uma vida independente, desenvolver uma carreira e encontrar um equilíbrio mais satisfatório entre trabalho e vida pessoal?

E não esqueçamos que a qualidade de vida também se mede pelo tempo disponível, pela proximidade dos serviços, pela facilidade das deslocações, pela segurança e pelas relações que conseguimos construir.

Há ainda uma dimensão que considero particularmente importante: a possibilidade de contribuirmos para um desenvolvimento mais equilibrado do território. Quando jovens profissionais escolhem viver e trabalhar noutras regiões, ajudam também a dinamizar as economias locais, a criar novas oportunidades e a dar continuidade à vida dessas comunidades.

Sei que nem todos podem ou desejam fazer essa escolha, e respeito-o inteiramente. As circunstâncias familiares, as exigências profissionais e os projetos pessoais são diferentes. Ninguém deveria sentir-se obrigado a abandonar a cidade onde quer viver por não conseguir suportar os preços da habitação.

Aliás, a responsabilidade de encontrar respostas para esta crise não pode ser transferida para os jovens. Cabe às entidades competentes criar condições para que existam alternativas reais, tanto nos grandes centros urbanos como nas restantes regiões do país.

O que proponho é apenas que essas alternativas sejam consideradas com maior abertura.

Uma preocupação que diz respeito a todos

A crise da habitação não começou agora e também não será resolvida de um dia para o outro. Tem raízes antigas, resulta de múltiplos fatores e exige respostas que ultrapassam qualquer medida isolada.

Como tenho referido ao longo de vários artigos, não existem soluções simples para problemas que se foram acumulando durante décadas.

Mas há algo que me parece essencial: aproveitar melhor os recursos de que dispomos, planear com responsabilidade e criar condições para que as pessoas tenham verdadeiramente a possibilidade de escolher onde querem viver.

Continuarei a acompanhar este tema com a preocupação de quem conhece o mercado imobiliário, mas também com a sensibilidade de quem sabe que, por detrás de cada procura de casa, existe uma pessoa, uma família ou um projeto de vida.

E talvez seja essa a reflexão mais importante que gostaria de deixar: quantas oportunidades estaremos a desperdiçar enquanto tantas pessoas continuam à espera de encontrar o seu lugar?

A resposta merece a atenção de todos nós.

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E você, como olha para esta questão?

Gostava de conhecer a sua opinião, sobretudo se está a sentir estas dificuldades ou se encontrou noutra cidade uma oportunidade para começar uma nova etapa da sua vida.

E, se está a ponderar comprar, vender ou mudar de casa, conte comigo para analisar as opções disponíveis e encontrar uma solução ajustada às suas necessidades e objetivos.

Entre em contacto comigo. Terei todo o gosto em ajudar!

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